• Talvez tenha a impressão de que a palavra «violência» é demasiado forte para descrever aquilo que está a viver, sobretudo se não houver agressões físicas. No entanto, as humilhações, os insultos, as ameaças, o controlo do dinheiro, o isolamento, as relações sexuais impostas ou ainda o controlo das suas deslocações também podem constituir formas de violência.
• As representações sociais e culturais têm tido tendência, nomeadamente, a concentrar-se na violência doméstica física, invisibilizando assim outras formas de violência que uma pessoa pode sofrer ou exercer.
• Algumas normas geracionais e sociais também contribuem para banalizar e normalizar diferentes formas de violência.
• Algumas pessoas cresceram com a ideia de que o casamento deve durar toda a vida, que os problemas do casal devem permanecer no seio da família ou que não se deve «falar mal» da parceira ou do parceiro. Estas crenças podem tornar mais difícil reconhecer a violência e falar sobre ela.
• Aspetos geracionais e culturais também podem influenciar a nossa definição do que constitui violência sexual e até contribuir para a sua invisibilização.
• Muitas pessoas também cresceram com a ideia de que o casamento é um compromisso para toda a vida e que é preciso preservar a unidade familiar a todo o custo.
• Isto pode levar, por exemplo, a resolver os problemas no seio da família, a considerar o casamento como uma união «para o melhor e para o pior», a considerar o marido como o chefe da família, a ter medo «do que os outros vão dizer» e a não falar mal das pessoas falecidas. Falar sobre violência no seio do casal faz frequentemente surgir um conflito de lealdade em relação à pessoa que exerce a violência ou à família.
• Muitas pessoas cresceram com a ideia de que o casamento ou o simples facto de estar numa relação implica consentimento e um compromisso em manter relações sexuais. A noção de «dever conjugal» está amplamente difundida e contribui para normalizar e até banalizar a violação.
• Estar casado/a ou numa relação nunca significa consentir automaticamente em manter relações sexuais. O consentimento continua a ser necessário, independentemente da idade ou da duração da relação.
• Estes fatores invisibilizam a violência e contribuem para a sua normalização. Podem também levar a pessoa vítima a sentir-se culpada e a ficar ainda mais isolada.
• É ainda mais difícil reconhecer a violência e validar aquilo que se sente quando as pessoas próximas valorizam estas crenças e normas. O medo de não ser compreendido/a também pode desencorajar uma pessoa de falar ou de se questionar sobre aquilo que está a viver.
• Em caso de perda progressiva dos laços sociais e da autonomia, a ideia de pedir ajuda ou sair de casa pode parecer insuperável. Com o avançar da idade, algumas pessoas podem ver a sua rede social diminuir: reforma, falecimento de pessoas próximas, problemas de mobilidade ou perda de autonomia. Este isolamento pode limitar as possibilidades de pedir ajuda.
• Os laços sociais são essenciais para a proteção contra o controlo coercivo e são frequentemente visados pela pessoa que exerce esse controlo, com o objetivo de isolar ainda mais a vítima e reforçar o seu domínio sobre ela. O isolamento social constitui, assim, um importante fator de risco e de vulnerabilidade.
• Quando a violência dura há muito tempo, por vezes durante várias décadas, falar sobre ela pode ser difícil. Muitas pessoas sentem vergonha ou culpa ao romper o silêncio sobre aquilo que estão a viver.
• Nas pequenas localidades, por exemplo, onde o anonimato é mais limitado, algumas vítimas podem recear o olhar dos outros ou que a sua situação seja conhecida pelas pessoas próximas ou pela família.
• Um círculo próximo que vive situações semelhantes e banaliza a violência pode, por vezes, reforçar a culpa ou a sensação de «ter falhado» no casamento ou de não ser «um/a bom/boa esposo/a». Neste contexto, pode ser particularmente difícil romper o silêncio. Além disso, nas dinâmicas de controlo e domínio no seio do casal, as humilhações, os insultos e o medo constante ou imprevisível podem reforçar o silêncio e levar a pessoa a duvidar dos seus próprios sentimentos, a sentir-se responsável pelas agressões e a adaptar-se a elas. Algumas pessoas sentem também vergonha neste ciclo de violência, por não compreenderem por que razão permanecem ou regressam para junto de uma pessoa que as faz sofrer.
• Sentir vergonha ou culpa é frequente quando se vive uma situação de violência. No entanto, a responsabilidade pela violência pertence sempre à pessoa que a exerce.
• Com o avançar da idade, algumas pessoas podem tornar-se mais dependentes da sua parceira ou do seu parceiro, nomeadamente a nível financeiro ou para determinados cuidados e atividades da vida quotidiana. Esta dependência pode tornar mais difícil pedir ajuda ou afastar-se de uma relação violenta. O controlo coercivo, que consiste em tornar uma pessoa dependente por razões psicológicas, financeiras ou de saúde, pode intensificar-se em idades mais avançadas, quando determinadas vulnerabilidades se acentuam.
• As desigualdades tornam-se ainda mais acentuadas para as mulheres: o facto de se ocuparem do lar e dos filhos, bem como as desigualdades salariais durante os anos de atividade profissional, reduzem drasticamente a pensão de reforma. Esta diferença pode, assim, reforçar a dependência e a violência económica.
• Pedir ajuda não significa necessariamente ter de sair imediatamente de casa ou pôr fim à relação. É possível falar sobre a sua situação e explorar as diferentes possibilidades ao seu próprio ritmo.
• Muitas pessoas não se atrevem a sair de uma relação marcada pela violência porque pensam que é demasiado tarde ou que já não vale a pena. Depois de anos a adaptarem-se a comportamentos agressivos, algumas pessoas sentem receio perante a ideia de partir.
• Algumas pessoas referem também sentir que não têm forças suficientes para iniciar procedimentos jurídicos ou administrativos.
• Os problemas de saúde e a dependência financeira em relação à parceira ou ao parceiro podem reforçar o controlo exercido por esta pessoa e o medo de não conseguir sair da relação.
• Algumas pessoas receiam perder o controlo da situação, ter de sair de casa, que a violência se agrave ou ter de ir viver para uma instituição para pessoas idosas.
• A dificuldade em falar sobre a situação e em encontrar recursos adaptados às necessidades específicas, nomeadamente financeiras, de cuidados ou psicológicas, constitui um obstáculo importante que pode desencorajar a procura de ajuda.
• As pessoas próximas são frequentemente um recurso muito importante, tanto para identificar a violência no seio do casal como para procurar soluções de apoio e acompanhamento.
• Alguns sinais podem ser motivo de alerta: isolamento, controlo por parte da parceira ou do parceiro (por ex., a pessoa não pode vestir-se como deseja ou fazer o que quer), banalização da violência contra a parceira ou o parceiro (por ex., através de piadas depreciativas ou sobre magoar ou maltratar a pessoa).
• Muitas vezes, é necessário quebrar o silêncio que envolve a violência. Por vezes, é preciso ter coragem para perguntar como está a relação em geral, como decorrem os conflitos ou se a pessoa alguma vez se sentiu em perigo, por exemplo.
• Uma pessoa que vive situações de violência no seio do casal atravessa uma situação difícil e dolorosa, que pode ser acompanhada de medo, vergonha ou de um sentimento de solidão. Para iniciar o diálogo, é importante oferecer uma escuta atenta, sem julgamentos e que respeite o ritmo da pessoa. Pressionar a vítima ou fazê-la sentir-se culpada são reações a evitar, pois podem isolá-la ainda mais.
• É importante condenar os atos de violência, mantendo ao mesmo tempo o vínculo com a pessoa. Mostrar-lhe que está disponível para a ouvir e apoiar, sem lhe impor condições (por ex., «Tens de deixar a tua parceira/o teu parceiro»), é uma forma valiosa de a acompanhar ao seu próprio ritmo e de lhe oferecer um espaço seguro.
• O papel de quem presencia ou tem conhecimento de uma situação de violência é fundamental, mas também delicado e, por vezes, pode ser difícil de assumir. Por isso, é importante não enfrentar esta situação sozinho/a e contar com apoio para poder falar sobre ela com total confidencialidade.